{"id":1662,"date":"2022-09-28T03:32:00","date_gmt":"2022-09-28T03:32:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.luxurymarketreview.com\/?p=1662"},"modified":"2024-10-22T03:34:11","modified_gmt":"2024-10-22T03:34:11","slug":"pode-a-arquitetura-ser-poesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.luxurymarketreview.com\/ru\/2022\/09\/28\/pode-a-arquitetura-ser-poesia\/","title":{"rendered":"Pode a arquitetura ser poesia?"},"content":{"rendered":"<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Cristina Mioranza reflete sobre as rela\u00e7\u00f5es poss\u00edveis entre arquitetura e poesia a partir de uma confer\u00eancia realizada em Viena (\u00c1ustria) em 1976, na qual o renomado arquiteto italiano Carlo Scarpa discute sua forma\u00e7\u00e3o<\/h4>\n\n\n\n<p><em>*Por: Cristina Mioranza<br>*Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o YouTube_ArcDog-1<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Formado em 1926 pela Real Academia de Belas Artes de Veneza, Carlo Scarpa (1906-1978) tenta seu registro em dezembro do mesmo ano, por\u00e9m se nega a fazer a prova de ordem, imposta pelo governo fascista de Mussolini. N\u00e3o estava, portanto, habilitado ao exerc\u00edcio da profiss\u00e3o de arquiteto, e seu parceiro de obras foi o arquiteto e engenheiro Carlo Arrigo Rudi Maschietto (Castelvecchio e Banca Popolare di Verona). Scarpa d\u00e1 aulas no Instituto Universit\u00e1rio de Arquitetura de Veneza (IUAV), em colabora\u00e7\u00e3o com o catedr\u00e1tico professor Guido Cirilli, sobre composi\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica at\u00e9 1929. Com isso, fica conhecido como Professor Scarpa. Com Cirilli, herda a aten\u00e7\u00e3o pelos detalhes e a qualidade da materialidade em seus projetos e constru\u00e7\u00f5es. Sobre a sua rela\u00e7\u00e3o com o mestre e sua escola, Scarpa relata que descende, por tradi\u00e7\u00e3o cultural, do monumento a Vittorio Emanuele II em Roma. Foi o melhor aluno do seu professor da Academia, que, por sua vez, tinha sido o melhor aluno do autor daquele emblem\u00e1tico monumento.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi no in\u00edcio dos anos 30 que escreveu, em conjunto com os venezianos Aldo Foili, Guido Pelizzari, Renato Renosto e Angelo Scatollin, um artigo de ades\u00e3o ao Movimento Racionalista. Nessa \u00e9poca, foi professor assistente de Auguste Sezanne, que possu\u00eda um curso na IUAV sobre desenhos ornamentais e estudos<em>&nbsp;\u2018da vero\u2019<\/em>. No ano seguinte, assume como titular da cadeira. Em 1934, recebe men\u00e7\u00e3o honrosa pelos trabalhos realizados junto \u00e0 empresa Venini de Murano e conhece o arquiteto vienense Josef Hoffmann, autor de obras como o pal\u00e1cio Stoclet, em Bruxelas, o Sanat\u00f3rio Purkesrdorf e, na \u00e1rea de design de m\u00f3veis, a cadeira&nbsp;<em>M\u00e1quina de Sentar,&nbsp;<\/em>de 1905. Scarpa conhecia suas obras como um todo e as apreciava em demasia, chegando ao ponto de influenciar alguns de seus trabalhos, segundo Rainald Franz, curador da mostra \u201c<em>Josef Hoffmann | Carlo Scapa, on the sublime in architecture\u201d&nbsp;<\/em>na Rep\u00fablica Tcheca. Scarpa refere-se a Hoffmann como um oriental, sendo ele um bizantino, em clara observa\u00e7\u00e3o aos estilos de arquitetura de cada um e admirando a modernidade vinda de Viena.<\/p>\n\n\n\n<p>No seu discurso, ele debate sobre a sua base na arquitetura, e percebemos a influ\u00eancia do livro<em>&nbsp;\u201cAs pedras de Veneza<\/em>\u201c, de John Ruskin, no qual os pensamentos derivavam do \u201cecletismo do considerado p\u00f3s-moderno\u201c ao \u201cpreciosismo em contraste com o brutalismo\u201d, observando que \u201ctodo material \u00e9 vivo e utiliz\u00e1vel, desde que trabalhado de acordo com a sua natureza, utilizada no seu devido lugar, na medida certa, justaposta a outra para que, por simpatia ou contraste, viva em uma rela\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica com ele\u201d,&nbsp;assim, comunga a \u201cnatureza org\u00e2nica de seu racionalismo, dentro de sua participa\u00e7\u00e3o original no movimento moderno\u201d, segundo Marisa Emiliani, em seu texto para o livro \u201cOs desenhos de CS para Castelvecchio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Reproduc%CC%A7a%CC%83o-YouTube_ArcDog-9.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Reproduc%CC%A7a%CC%83o-YouTube_ArcDog-9.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-52061\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Nas imagens acima, ambientes da Tomba Brion, projeto do arquiteto Carlo Scarpa, na regi\u00e3o de Treviso, na It\u00e1lia, em frames retirados de v\u00eddeo da rede de arquitetos ArcDog<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Para John Ruskin, \u201cdiante da grande lei da natureza que formou essa paisagem selvagem e triste, \u00e9 preciso lembrar a estranha prepara\u00e7\u00e3o a que s\u00e3o submetidas as coisas que nenhuma imagina\u00e7\u00e3o poderia prever e repetir que a exist\u00eancia e fortuna da na\u00e7\u00e3o veneziana se deveram aos obst\u00e1culos naturais opostos aos rios e ao mar\u201d. Ele tamb\u00e9m diz que \u201cn\u00e3o h\u00e1 um s\u00f3 grande pintor, um grande oper\u00e1rio de qualquer arte que n\u00e3o descubra, a um simples olhar, mais do que lhe teriam ensinado longas horas de trabalho.&nbsp;Cada homem \u00e9 dotado para sua obra. \u00c0quele que deve ser um homem de estudo, Deus d\u00e1 as faculdades de reflex\u00e3o, de l\u00f3gica, de dedu\u00e7\u00e3o; ao artista, Ele d\u00e1 as faculdades de percep\u00e7\u00e3o que experimentam e conservam as sensa\u00e7\u00f5es.&nbsp; E um desses homens seria incapaz de realizar a obra do outro, at\u00e9 mesmo de compreend\u00ea-la\u201d.<em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Carlo Scarpa era um profissional que estava sempre nas suas obras: o requinte de detalhamento e excel\u00eancia de execu\u00e7\u00e3o denotam importante participa\u00e7\u00e3o do arquiteto junto a fornecedores e empreiteiros, com discuss\u00f5es do interesse de todos para que a qualidade da obra seja percebida e privilegiada.<\/p>\n\n\n\n<p>O questionamento que Scarpa faz em seu discurso \u201c<em>Quando \u00e9 poesia uma arquitetura e quando n\u00e3o \u00e9<\/em>?\u201d e os referenciais acima \u2013 principalmente de Ruskin, delimitando o tema \u2013 nos ajudam a separar arquitetura e poesia.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Tornar arquitetura poesia se faz pelo processo de projetar, buscar harmonia entre formas e suas fun\u00e7\u00f5es \u2013 onde o apelo pelo projeto se torna encantador. Isso se perde quando come\u00e7am os trabalhos burocr\u00e1ticos \u2013 escolha de materiais, or\u00e7amentos e execu\u00e7\u00e3o \u2013, tornando-se novamente poesia \u00e0 medida que o objeto ganha a forma projetada em tamanho real.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Scarpa cita Le Corbusier em seu discurso no qual descobre a liberdade de todos os antigos conceitos estudados em sua gradua\u00e7\u00e3o. O livro&nbsp;<em>Por uma Arquitetura&nbsp;<\/em>oportuniza a Scarpa novas teorias e referenciais importantes da arquitetura moderna, saindo do ecletismo que tinha aprendido. Quando Le Corbusier fala sobre a ilus\u00e3o das plantas e coloca que o exterior \u00e9 o resultado do interior, que os elementos da arquitetura s\u00e3o luz e sombra, parede e espa\u00e7o, fica clara a refer\u00eancia a Carlo Scarpa.&nbsp; Suas obras s\u00e3o o reflexo desse conceito: a&nbsp;<em>ilus\u00e3o das plantas<\/em>&nbsp;\u00e9 empregada em diversas obras.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Reproduc%CC%A7a%CC%83o-YouTube_ArcDog-7.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Reproduc%CC%A7a%CC%83o-YouTube_ArcDog-7.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-52059\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Nas imagens acima, ambientes da Tomba Brion, projeto do arquiteto Carlo Scarpa, na regi\u00e3o de Treviso, na It\u00e1lia, em frames retirados de v\u00eddeo da rede de arquitetos ArcDog<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Para Corbusier, \u201co arquiteto, ordenando formas, realiza uma ordem que \u00e9 pura cria\u00e7\u00e3o de seu esp\u00edrito; pelas formas, afeta intensamente nossos sentidos, provocando emo\u00e7\u00f5es pl\u00e1sticas; pelas rela\u00e7\u00f5es que cria, desperta em n\u00f3s resson\u00e2ncias profundas. Nos d\u00e1 a medida de uma ordem que sentimos acordar com a ordem do mundo, determina movimentos diversos de nosso esp\u00edrito e de nossos sentimentos; sentimos, ent\u00e3o, a beleza\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguindo essa narrativa po\u00e9tica, Scarpa se define, logo ap\u00f3s a sua formatura, como um arquiteto \u00e0 frente de seu tempo e na observa\u00e7\u00e3o dos detalhes arquitet\u00f4nicos. Com sua imers\u00e3o no mundo do design e em interiores, as possibilidades de cria\u00e7\u00e3o s\u00e3o as mais \u201cfelizes\u201d \u2013 como diria Le Corbusier \u2013, pois temos arquitetura tanto<em>&nbsp;<\/em>\u201cno aparelho telef\u00f4nico quanto no Parthenon\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A palavra \u201charmonia\u201d \u00e9 citada no discurso de Scarpa, por\u00e9m Le Corbusier nos diz que a engenharia gera harmonia e que arquitetura \u00e9 \u201ccoisa de emo\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica\u201d e dita: deve-se \u201ccome\u00e7ar pelo come\u00e7o tamb\u00e9m e empregar os elementos suscet\u00edveis de atingir os sentidos de satisfazer nossos desejos visuais e disp\u00f4-los de tal maneira que sua vis\u00e3o nos afete claramente\u201d. \u201cA constru\u00e7\u00e3o \u00e9 para sustentar; a arquitetura \u00e9 para emocionar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, conferirmos a base e a refer\u00eancia de Scarpa em seu discurso. A poesia est\u00e1 na arquitetura. As rela\u00e7\u00f5es trazidas s\u00e3o \u201cpura cria\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito\u201d; s\u00e3o, por\u00e9m, conceitos dif\u00edceis de entender. O indiv\u00edduo (contratante) n\u00e3o tem acesso a esses conceitos e precisa confiar no arquiteto para que seu projeto vislumbre a sua poesia. Poesia e arte s\u00e3o abstra\u00e7\u00f5es, a m\u00fasica \u00e9 mais literal, facilmente compreendida e exclamada. Devemos pensar a respeito e trazer a discuss\u00e3o para os dias de hoje.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Como fazer poesia em arquitetura com tantas normas e preceitos que temos de entender e refor\u00e7ar em nossos projetos?<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Falando sobre duas regras importantes de Le Corbusier, trago para relacionar duas significativas obras de Scarpa para a explana\u00e7\u00e3o e o embasamento do discurso citado e talvez elucidar o meu questionamento acima. Um dos recursos de Le Corbusier que Scarpa se apropria \u00e9 o uso correto da luz: \u201cA arquitetura \u00e9 o jogo s\u00e1bio, correto e magn\u00edfico dos volumes reunidos sob a luz. Nossos olhos s\u00e3o feitos para ver formas sob a luz\u2026\u201d. Le Corbusier dita uma regra importante que interage beneficamente nas obras de Scarpa. O Museu C\u00edvico di Castelvecchio, em Verona, ao norte da It\u00e1lia, \u00e9 uma grande interven\u00e7\u00e3o moderna em que o recurso da ilumina\u00e7\u00e3o natural \u00e9 usado \u00e0 exaust\u00e3o, proporcionando sensa\u00e7\u00f5es das fases do dia e seus efeitos nas obras de arte do museu. O resultado surpreende pela qualidade das sombras e pelos efeitos no seu interior. Tudo minimamente pensado e projetado, conforme os in\u00fameros desenhos que seu acervo possui.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Reproduc%CC%A7a%CC%83o-YouTube_ArcDog-5.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Reproduc%CC%A7a%CC%83o-YouTube_ArcDog-5.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-52057\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Nas imagens acima, ambientes da Tomba Brion, projeto do arquiteto Carlo Scarpa, na regi\u00e3o de Treviso, na It\u00e1lia, em frames retirados de v\u00eddeo da rede de arquitetos ArcDog<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A interven\u00e7\u00e3o moderna percebeu a ilumina\u00e7\u00e3o natural de uma forma intensa dentro dos ambientes e valorizou cada pe\u00e7a do seu interior. A ilumina\u00e7\u00e3o artificial proposta por Scarpa mostra sutileza e refer\u00eancia em elementos do pr\u00f3prio castelo, iluminando de forma simples, pontual e em constante movimento quando a ilumina\u00e7\u00e3o natural sai de cena. O estudo da localiza\u00e7\u00e3o das pe\u00e7as de arte dentro do museu s\u00e3o partes fundamentais do \u201crelacionamento e dinamismo entre edif\u00edcio, objeto e luz\u201d, que Richard Murphy observa em seu livro \u201c<em>Carlo Scarpa and Castelvecchio Revisited<\/em>\u201d, de 2017 \u2013 al\u00e9m da sensa\u00e7\u00e3o do visitante diante do envolvimento arquitet\u00f4nico desse conjunto.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Scarpa controlava a luz natural de uma forma surpreendente. O uso desse recurso fez seus projetos aproveitarem o movimento das cores e sombras de cada per\u00edodo. O ritmo que a luz natural entrega \u00e0 obra favorece todo o acervo do museu at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se pode esquecer, tamb\u00e9m, que os tra\u00e7ados reguladores de Le Corbusier determinaram e ajudaram Scarpa em muitas de suas obras. \u201cO tra\u00e7ado regulador \u00e9 uma satisfa\u00e7\u00e3o de ordem espiritual que conduz \u00e0 busca de rela\u00e7\u00f5es engenhosas e de rela\u00e7\u00f5es harmoniosas. Ele confere \u00e0 obra a euritmia.\u201d<em>&nbsp;<\/em>Ao falar sobre isso, temos a Tomba Brion, de 1969, localizada na Comune di Altivole, distrito de Treviso, na regi\u00e3o do V\u00eaneto, ao norte da It\u00e1lia. Lugar calmo, plano e cercado pelas montanhas da Cortina D\u2019Ampezzo. Tem 2.400 m\u00b2 em um terreno rural em forma de L, divisa com o cemit\u00e9rio de San Vito di Altivole. Temos cinco edifica\u00e7\u00f5es dentro do terreno:<em>&nbsp;<\/em>o P\u00f3rtico, o Pavilh\u00e3o, a Catacumba, o Anexo e a Igreja.<\/p>\n\n\n\n<p>A Tomba Brion tem uma entrada principal pelo cemit\u00e9rio da comunidade, o P\u00f3rtico<em>,<\/em>&nbsp;seguindo a hierarquia para o acesso, onde dois an\u00e9is em perfeita geometria representam a alian\u00e7a do casal Brion. Aqui temos um apelo matem\u00e1tico, geom\u00e9trico e simb\u00f3lico, rico em detalhes, referenciando Palladio [arquiteto italiano Renascentista], nas suas formas, mas enxergando Le Corbusier na busca pelas linhas e eixos que essa obra possui. O projeto \u00e9 todo regrado, com&nbsp; amarra\u00e7\u00f5es entre eixos dos cinco objetos fundamentais. A entrada secund\u00e1ria, mas n\u00e3o menos importante pela capela, de onde vemos a Igreja<em>&nbsp;<\/em>rodeada por \u00e1gua, em uma refer\u00eancia aos canais de Veneza (Palladio fez poucas igrejas, mas a veneziana Il Redentore&nbsp;est\u00e1 localizada numa das ilhas da cidade). No seu interior, uma&nbsp;<em>Villa Rotonda<\/em>&nbsp;contempor\u00e2nea, com uma c\u00fapula piramidal, um requinte de detalhes ao estilo de Scarpa que percorre todo o ambiente, fazendo estereotomias dentro e fora do complexo \u2013 o que n\u00e3o era novidade \u00e0 Le Corbusier, j\u00e1 conhecido como um grande admirador de Palladio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O observador tem \u00e2ngulos do complexo sem perder a perspectiva, \u00e9 conduzido no percurso pelos eixos pensados de forma matem\u00e1tica e geom\u00e9trica, passeia pelo espelho d\u2019\u00e1gua e seu Pavilh\u00e3o que a recolhe e a leva at\u00e9 o arco. Quando se chega \u00e0 Catacumba, se percebe o c\u00edrculo perfeito, o desn\u00edvel, a perspectiva e o ponto de fuga nos dois sarc\u00f3fagos do casal Brion. Ap\u00f3s, seguindo pelo Anexo, temos os restos mortais dos familiares, rodeados por um jardim. O percurso finaliza pela Igreja<em>&nbsp;<\/em>ou pela entrada principal. Independentemente do trajeto feito, nada se perde e tudo \u00e9 arquitetura e poesia. A refer\u00eancia aos tra\u00e7ados reguladores \u00e9 not\u00f3ria na planta abaixo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-51942\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Constru\u00e7\u00e3o geom\u00e9trica e eixos (Fonte:&nbsp;<a href=\"https:\/\/visicert.tumblr.com\/post\/82031394646\/plansofarchitecture-carlo-scarpa-brion\">https:\/\/visicert.tumblr.com\/post\/82031394646\/plansofarchitecture-carlo-scarpa-brion<\/a>)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Harmonia \u00e9 inspira\u00e7\u00e3o. Poesia \u00e9 arte, arte tamb\u00e9m \u00e9 arquitetura. Regras podem ser transformadas em arte, em arquitetura e poesia. Independentemente da forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, a busca por conhecimento e inova\u00e7\u00e3o s\u00e3o premissas para que aconte\u00e7a a diferencia\u00e7\u00e3o entre profissionais. Logicamente, uma boa forma\u00e7\u00e3o, com acesso \u00e0s mais diferentes culturas e pessoas de n\u00edveis de conhecimento superiores, oportuniza uma importante ret\u00f3rica em torno do assunto estudado. Scarpa, contudo, em seu discurso, nos diz que \u201cmestre \u00e9 aquele que expressa coisas novas para os outros aprenderem\u201d e desmistifica essa figura, colocando que \u201cos mestres modernos est\u00e3o todos mortos\u201d, ou seja, n\u00e3o s\u00e3o imortais, mas seus conceitos e teorias permanecem at\u00e9 os dias de hoje, pois ele mesmo sofreu a influ\u00eancia de Le Corbusier. Quando ele cita Frank Lloyd Wright sobre o tema \u201cArquitetura pode ser poesia?\u201d, vemos o que nos acontece atualmente: \u201cnem sempre a sociedade pede poesia\u201d e n\u00e3o podemos fazer sempre da arquitetura uma poesia. Se pensarmos no tema propriamente, n\u00e3o a teremos. \u201cEla vem das coisas em si\u201d, como disse o professor Scarpa, quase aleatoriamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Nosso dever como arquitetos \u00e9 trabalhar sempre em prol da excel\u00eancia, do compromisso assumido quando da nossa forma\u00e7\u00e3o, mas, se quisermos destaque, o pensamento precisa fluir e ir al\u00e9m dos nossos conhecimentos b\u00e1sicos. A busca incessante por inova\u00e7\u00e3o e cultura muitas vezes nos direciona aos conceitos mais antigos da arquitetura, trazendo os referenciais mais importantes para a atualidade. Como disse Scarpa, os mestres est\u00e3o mortos<em>,<\/em>&nbsp;mas toda a experi\u00eancia est\u00e1 ao alcance das nossas m\u00e3os, bem como a busca pelo entendimento da aplica\u00e7\u00e3o em nossos projetos e posterior objeto, aproveitando o momento para se fazer poesia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Reproduc%CC%A7a%CC%83o-YouTube_ArcDog-3.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Reproduc%CC%A7a%CC%83o-YouTube_ArcDog-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-52055\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Nas imagens acima, ambientes da Tomba Brion, projeto do arquiteto Carlo Scarpa, na regi\u00e3o de Treviso, na It\u00e1lia, em frames retirados de v\u00eddeo da rede de arquitetos ArcDog<\/figcaption><\/figure>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo | Cristina Mioranza reflete sobre as rela\u00e7\u00f5es poss\u00edveis entre arquitetura e poesia a partir de uma confer\u00eancia realizada em Viena (\u00c1ustria) em 1976, na qual o renomado arquiteto italiano Carlo Scarpa discute sua forma\u00e7\u00e3o *Por: Cristina Mioranza*Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o YouTube_ArcDog-1 Formado em 1926 pela Real Academia de Belas Artes de Veneza, Carlo Scarpa (1906-1978) tenta [&hellip;]<\/p>","protected":false},"author":14,"featured_media":1664,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":{"0":"post-1662","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-uncategorized"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.luxurymarketreview.com\/ru\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1662","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.luxurymarketreview.com\/ru\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.luxurymarketreview.com\/ru\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.luxurymarketreview.com\/ru\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.luxurymarketreview.com\/ru\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1662"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.luxurymarketreview.com\/ru\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1662\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1665,"href":"https:\/\/www.luxurymarketreview.com\/ru\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1662\/revisions\/1665"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.luxurymarketreview.com\/ru\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1664"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.luxurymarketreview.com\/ru\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1662"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.luxurymarketreview.com\/ru\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1662"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.luxurymarketreview.com\/ru\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1662"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}